domingo, março 23, 2014

Das orações pra Deus nenhum

Aí a faxineira do meu andar me pergunta, toda encabulada
- Desculpa, mas o que é aquela imagem de metal na sua mesa?
- (e eu já me preparando pra um discurso evangélico com um sorriso todo amoroso de quem não quer conflito) É uma estatueta de Buda e a medalha é de Fátima, que minha mãe é devota.
- Ah, sabe que eu fiquei toda sem graça de te perguntar, mas sempre que eu chego pra limpar sua mesa é uma energia tão forte, uma paz tão grande! E eu peguei ele nas mãos, e pedi pra abrir as portas pro meu filho que tem neném pequeno e tava sem trabalho! Aì eu queria saber o que a gente põe lá pra ele, pra agradecer...
- Nada... Você pediu sem saber quem era, apenas com o coração aberto. Se você recebeu sua graça, não foi pela figura daquela imagem, mas pela força da sua oração.

Fui criada católica, e passei de atuante fervorosa da renovação carismática a questionadora ferrenha de práticas religiosas na adolescência. Aos poucos encontrei a serenidade de apenas crer, sem nomes, rótulos, rituais, protocolos. Vou à missa só pra ouvir homilia, tomo passe, medito depois da yoga, ouço música gospel, tomo banho de sal grosso depois de um dia difícil e acendo vela pro meu Anjo, rezo em voz alta dentro do elevador saindo de casa, mentalizo coisas positivas enquanto cozinho tal qual uma feiticeira.

Mas essa criatura me despertou uma nova admiração espiritual. O analfabetismo religioso dela permitiu uma oração genuína, uma percepção natural, uma fé sem nomes. A singeleza em querer retribuir foi tão pura quanto aquela lágrima de emoção que marejou seu sorriso enquanto ela me contava que agora o filho tem carteira assinada e está feliz no trabalho novo.
Osho falou sobre Buda de uma forma como eu ainda não tinha percebido a verdade na descontrução dos dogmas religiosos. Essa faxineira, na sua ignorância protocolar e verdadeira entrega espiritual, certamente, alcançou a iluminação que muitos eruditos ignoram. E me aproximou ainda mais do verdadeiro significado de Deus: nossa energia desejosa do que é bom, e apenas isso!

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