sexta-feira, junho 18, 2010

Adaptabilidade

texto escrito ontem, mas hoje ainda vale...

Eu me apaixono fácil com as coisas. Não só com as pessoas.

Quando fui convidada pra trabalhar onde eu tô hoje, a sensação que eu passava na antiga empresa era de total falta de tesão, broxante. Em uma semana, eu já ensaiava discursos de demissão, justificativas que me respaudassem contra qualquer tentativa de me manter na empresa, passava as noites antes da minha contratação imaginando roupa, postura, linguajar, possibilidades. De um dia pro outro deixei de ir pra Unidade Sankhya Botafogo de motinha, moleton e um rock pesado no mp3 pra chegar no Centro Administrativo do Martins de tailleur, maquiada e com a melhor seleção de lounge no pendrive. O caos reinava, e por isso mesmo eu havia sido contradada. Orgasmos profissionais, e quanto mais meu chefe me pressiona, cobra, exige, implica e direciona, mais desafiada eu me sinto a ocupar a cadeira dele, superar, crescer.

Só por prazer, nunca sem amor

Eu preciso me sentir extasiada com as coisas pra fazê-las bem. Preciso querer me dedicar pra começar qualquer coisa. Qualquer projeto, qualquer expectativa, qualquer sonho.

Assim como eu já passei por muitas empresas - até agora 15 em 6 anos - aprendi a não criar expectativas demais, a aceitar que só estou ali porque sou diferente, e essencial, mas que se passar a ser comum sou facilmente reclassificada como descartável, aprendi a levar isso pra minha vida também.

Comecei a aceitar, sem hipocrisia - mas não sem perder o calor e ignorar a dor - que até mesmo um romance precisa se adaptar pra se tonar realmente bom. Os 3 ou 4 primeiros encontros são lindos. Se rolar uma coisinha mais caliente e for bom, então, tô nas nuvens. Mas eu já cometi tantas vezes a gafe de achar que isso significaria a maneira como fica lá na frente, e esquecer que eu passei uns anos com a mesma pessoa e que agora eu preciso aprender tudo de novo, que eu tô ficando escaldada.

Fui dormir ontem depois de assistir Away From Her, indicado pela Lor3na - lindo, silente e pleno, vale a pena - já com aquela sensação de eu tava começando a me apaixonar, e na certeza de que a sensação seguinte, se não estivesse consciente disso, era de que tudo poderia ser indicativo de que não vai rolar mais, de que eu sou um fracasso, de que foi só uma aventura, etc...

Pra comprovar essa teoria, cheguei na empresa hoje - tubinho risca de giz, meia fina, scapin, total executive e meu chefe me fazendo as mesmas cobranças que na primeira semana me deixavam angustiadíssima por eu não saber resolver, mas que agora me causam a simples reação de abrir o sistema, conferir, e responder que não faço idéia do que se trata. Traduzindo: me adaptei, equilibrando minhas expectativas com as necessidades do outro lado.

Me deixei levar pelo impulso de enviar um email meloso de bom dia. Mas sem esperar nada de volta. E foi surpreendentemente gostoso receber um "delícia de afago verbal".

Só por prazer, nunca sem amor.

Preciso sentir tesão pra começar alguma coisa, mas demorou até eu aprender que essa frase já indica que é preciso considerar a serenidade em tempo integral. Gratuidade, pra merecer reciprocidade.

Um comentário:

GJ disse...

Adaptabilidade é parte da evolução. Evolução sempre para melhor.